Jogo do Tigrinho e Apostas Online: o novo grande problema de saúde mental do Brasil

Uma crise que chegou às famílias brasileiras

Como psicólogo clínico com mais de 20 anos de experiência, acompanho de perto o surgimento e a consolidação de novos desafios de saúde mental. Nos últimos dois anos, porém, nenhum tema chegou com tanta intensidade aos consultórios — incluindo o meu, em Campo Grande (MS), e nos atendimentos online — quanto o vício em apostas digitais.

O Jogo do Tigrinho (Fortune Tiger), as bets esportivas e outros cassinos online passaram de curiosidade para fenômeno de saúde pública em tempo recorde. Não é exagero: é o que os dados mostram com clareza.

Os números de 2025 que precisamos conhecer

O ano de 2025 foi marcado por pesquisas que revelaram a dimensão real do problema:

  • Segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), com dados de 2023, cerca de 10,8 milhões de brasileiros a partir de 14 anos jogam de forma arriscada ou problemática.
  • Uma estimativa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), citada em dossiê do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), aponta cerca de 12,8 milhões de pessoas em situação de risco em relação às apostas.
  • Em 2025, 26,3% dos lares brasileiros participaram de alguma forma de jogo de apostas, segundo pesquisa da NielsenIQ divulgada em março de 2026.
  • A Pesquisa Game Brasil (PGB) de 2025 revelou que 38,2% dos entrevistados dizem jogar em cassinos e plataformas de apostas online — um crescimento expressivo em relação a 2024.

Mas os impactos vão além dos jogadores individuais. Um dossiê inédito do IEPS, lançado em dezembro de 2025, calculou que apostas e jogos de azar geram uma perda econômica e social de R$ 38,8 bilhões por ano ao Brasil. Desse total:

  • R$ 17 bilhões por mortes adicionais por suicídio
  • R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida com depressão
  • R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para depressão
  • R$ 4,7 bilhões em custos com encarceramento

Para efeito de comparação: o governo arrecada R$ 7 bilhões em impostos com as bets — e gasta mais de R$ 38 bilhões nos danos gerados. O cálculo não fecha.

O que é o Jogo do Tigrinho — e por que ele é tão perigoso?

O “Jogo do Tigrinho” é o nome popular do Fortune Tiger, um jogo de slot (caça-níquel digital) desenvolvido pela empresa PG Soft. Funciona de forma simples: o jogador aposta um valor, aciona o giro dos rolos e aguarda o resultado. Ganhou popularidade no Brasil a partir de 2023, impulsionado por divulgação massiva de influenciadores digitais nas redes sociais.

Sua periculosidade não está no jogo em si, mas em como ele foi projetado:

  • Resultados instantâneos: o intervalo entre a aposta e o resultado é de segundos, acelerando o ciclo de reforço e tornando a dependência mais rápida do que nos cassinos físicos.
  • Acessibilidade total: disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, direto pelo celular — sem limitações físicas, sociais ou de horário.
  • Recompensa variável: o sistema de ganhos imprevisíveis é o mecanismo mais poderoso de criação de dependência conhecido pela neurociência.
  • “Quase ganhos”: sequências que ficam uma posição de uma grande vitória mantêm o jogador preso na esperança, mesmo acumulando perdas.
  • Marketing agressivo: influenciadores mostram ganhos expressivos — raramente as perdas — normalizando e glamorizando o comportamento.

A neurociência do vício: o que acontece no cérebro

O professor Bruno Resende, neurocientista do Departamento de Fisiologia e Biofísica da UFMG, afirma que o fenômeno das apostas virtuais “vai muito além de um problema econômico — é também um problema de saúde mental”. E a neurociência explica por quê.

Quando apostamos e ganhamos — mesmo que seja pouco —, o cérebro libera dopamina, o neurotransmissor associado ao prazer, motivação e recompensa. Essa liberação cria uma sensação intensa de euforia. O problema é que o cérebro aprende rapidamente a antecipar esse prazer: com o tempo, a dopamina começa a ser liberada não quando se ganha, mas quando se está prestes a girar os rolos.

Esse mecanismo — chamado de recompensa variável intermitente — é o mesmo que mantém pessoas dependentes de drogas como cocaína. Estudos de neuroimagem mostram que as áreas cerebrais ativadas no jogo patológico são as mesmas ativadas em dependentes químicos. Para o cérebro, o vício em jogo é neurologicamente equivalente ao vício em substâncias.

A conexão com o TDAH

Existe uma relação especialmente preocupante entre o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e a vulnerabilidade às apostas online. Pessoas com TDAH apresentam alterações nos sistemas dopaminérgicos do cérebro, levando a uma busca mais intensa por estímulos imediatos e por recompensas rápidas.

O Jogo do Tigrinho e as bets oferecem exatamente isso: gratificação instantânea, ciclos rápidos de estímulo e resultado, e a ilusão constante de que “o próximo giro pode mudar tudo”. Para um cérebro com TDAH — que já tem dificuldade em resistir a impulsos e em avaliar consequências de longo prazo — esse ambiente é particularmente armadilhoso.

Adolescentes e jovens adultos com TDAH não diagnosticado ou não tratado estão entre os grupos de maior risco. O comportamento de apostar pode ser percebido, por eles mesmos e pela família, como “distração” ou “entretenimento” — quando, na verdade, pode estar atendendo a uma necessidade neurológica real de estimulação dopaminérgica.

O impacto sobre os jovens e as redes sociais

Entre os menores de 18 anos — que, por lei, não podem acessar plataformas de apostas — os dados são especialmente alarmantes. Segundo o LENAD III, 55% dos menores de 18 anos que apostaram no último ano apresentaram comportamento de dependência. Na população adulta, esse índice é de 39%.

Um estudo sobre o impacto das bets na educação superior, realizado em julho de 2025 pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) em parceria com a consultoria Educa Insights, revelou que 34% dos jovens entre 18 e 35 anos que planejavam iniciar uma faculdade em 2025 adiaram a matrícula por causa de gastos com apostas — o equivalente a quase 1 milhão de jovens fora do ensino superior.

As redes sociais funcionam como amplificador do problema. Influenciadores digitais — incluindo atletas, artistas e personalidades populares — promovem plataformas de apostas com a narrativa de ganhos fáceis, raramente mostrando as perdas. Esse conteúdo alcança adolescentes que, segundo especialistas do Einstein Hospital Israelita, ainda não possuem maturidade neurológica para avaliar riscos e benefícios de forma adequada.

O psiquiatra Elton Kanomata explica: “Em um cérebro jovem e ainda em formação, eleva-se o risco para modificações cerebrais e atividade de neurotransmissores que levam à dependência por jogos.”

A Lei 14.790/2023 e a regulamentação das bets

Sancionada em dezembro de 2023, a Lei 14.790/2023 — conhecida como Lei das Bets — trouxe um novo marco regulatório para as apostas de quota fixa no Brasil. A regulamentação entrou em vigor integralmente em janeiro de 2025.

Antes dessa lei, o mercado operava sem regras claras desde 2018, quando as apostas esportivas foram liberalizadas. Qualquer empresa podia operar, sem fiscalização, sem proteção ao consumidor e sem qualquer contribuição fiscal ao país.

O que a lei trouxe de novo:

  • Obrigatoriedade de autorização do Ministério da Fazenda para operar
  • Empresas devem ser sediadas no Brasil e operar com domínio “.bet.br”
  • Proibição de concessão de crédito para apostas
  • Proibição de participação de menores de idade (com verificação por CPF e reconhecimento facial)
  • Multas de até R$ 2 bilhões para empresas que descumpram as normas
  • Monitoramento constante das transações e detecção de comportamentos atípicos

Em paralelo, a CPI das Bets do Senado Federal, instalada em novembro de 2024 e encerrada em junho de 2025, investigou a influência dos jogos virtuais no orçamento das famílias brasileiras e a manipulação de resultados esportivos, recomendando novos projetos de lei para ampliar proteções.

Os limites da regulamentação: apesar dos avanços, especialistas apontam que a regulamentação, por si só, não resolve o problema do vício. Plataformas ilegais continuam operando; a publicidade segue intensa; e não há estrutura pública suficiente para acolher os milhões de brasileiros em situação de dependência.

Consequências para a saúde mental e para as famílias

O transtorno do jogo (CID-11: 6C50) — nome técnico para a dependência de apostas — não afeta apenas o apostador. Ele destrói relacionamentos, compromete finanças familiares inteiras e frequentemente coexiste com outros transtornos:

  • Ansiedade e depressão são as comorbidades mais frequentes
  • Entre 40% e 60% dos pacientes com transtorno do jogo têm algum nível de ideação suicida ao longo da vida
  • Cerca de 20% chegam a tentativas de suicídio, segundo a psiquiatra Nayana Holanda, do Hospital de Saúde Mental de Messejana (CE)
  • Endividamento progressivo, muitas vezes com uso de recursos destinados a aluguel, alimentação e saúde
  • Ruptura de vínculos familiares e isolamento social
  • Afastamento do trabalho e queda no rendimento acadêmico

Uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) revelou que 63% dos apostadores comprometeram o orçamento doméstico com apostas: 23% abriram mão de roupas, 19% deixaram de fazer compras em supermercados e 14% cortaram produtos de higiene pessoal.

Como identificar o vício em apostas: os sinais de alerta

O Transtorno do Jogo é diagnosticado pelo DSM-5 (Manual Diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria) quando 4 ou mais dos seguintes critérios estão presentes nos últimos 12 meses:

  • Necessidade de apostar quantias cada vez maiores para obter a mesma sensação
  • Irritabilidade, ansiedade ou inquietação quando tenta reduzir ou parar
  • Tentativas repetidas e sem sucesso de controlar ou parar
  • Pensamentos frequentes sobre o jogo — revivendo apostas passadas ou planejando as próximas
  • Jogar como forma de escapar de problemas emocionais
  • Retornar para tentar “recuperar o prejuízo” após perder dinheiro (chasing)
  • Mentir para familiares ou pessoas próximas sobre a frequência e o volume apostado
  • Prejudicar ou perder relacionamentos, emprego ou oportunidades em razão do jogo
  • Depender de terceiros para resolver problemas financeiros causados pelas apostas

Quando procurar um psicólogo?

Você não precisa preencher todos os critérios acima para precisar de ajuda. Se o comportamento de apostar já está causando algum nível de sofrimento — seja financeiro, emocional ou nos relacionamentos —, esse é o momento certo de buscar suporte profissional.

Procure um psicólogo se você ou alguém próximo:

  • Pensa constantemente em apostas, mesmo quando não está jogando
  • Sente dificuldade genuína de parar, mesmo querendo
  • Esconde o comportamento de apostar de familiares
  • Já usou dinheiro de contas fixas, alimentação ou poupança para apostar
  • Sente alívio emocional apenas quando está apostando
  • Tentou parar mais de uma vez e não conseguiu
  • Percebe sintomas de ansiedade, depressão ou irritabilidade crescentes

O tratamento é possível. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é a abordagem com maior base de evidências para o transtorno do jogo. Ela ajuda o paciente a identificar os pensamentos distorcidos que alimentam o vício (como a “ilusão de controle” e a “falácia do apostador”), desenvolver estratégias de enfrentamento e lidar com os gatilhos emocionais que disparam a compulsão.

Quando existem comorbidades como TDAH, ansiedade ou depressão, o acompanhamento psiquiátrico em paralelo é frequentemente indicado — e pode fazer uma diferença significativa nos resultados.

Atendo presencialmente em Campo Grande (MS) e ofereço também atendimento online para pessoas em qualquer parte do Brasil. Se você ou alguém que você conhece está enfrentando essa situação, o primeiro passo é o mais importante — e você não precisa dar esse passo sozinho.

Uma palavra para as famílias

O vício em apostas raramente é reconhecido pelo próprio apostador como um problema — pelo menos não no início. Familiares frequentemente percebem os sinais antes da pessoa afetada. Se você suspeita que alguém próximo está desenvolvendo dependência de apostas, evite confrontos acusatórios. Ofereça escuta, expresse preocupação genuína e apresente a possibilidade de buscar ajuda profissional como um ato de cuidado, não de punição.

A abordagem acolhedora tem muito mais eficácia do que o julgamento — e pode fazer toda a diferença no caminho de alguém para a recuperação.

Marcelo Comparin é psicólogo clínico (CRP 14/03335-3), com mais de 20 anos de experiência no atendimento de adultos e adolescentes em Campo Grande (MS) e online. Saiba mais em marcelocomparin.com.