O que são transtornos alimentares?
Os transtornos alimentares são condições psiquiátricas sérias, caracterizadas por alterações persistentes no comportamento alimentar que comprometem a saúde física e mental de quem os vivencia. Vão muito além de uma “dieta mal feita” ou de um momento de compulsão: representam um sofrimento profundo, com raízes psicológicas, biológicas, familiares e socioculturais.
Como psicólogo clínico com mais de 20 anos de atuação em Campo Grande (MS) e no atendimento online, tenho acompanhado um aumento preocupante desses casos — especialmente entre adolescentes e jovens adultos. Mais do que nunca, esse tema precisa ser falado com clareza, sem julgamento e com a seriedade que merece.
O cenário atual: dados de 2025 e 2026
Os números são alarmantes. Segundo o coordenador do programa de transtornos alimentares do Hospital Universitário da USP, o professor Táki Cordás, cerca de 15 milhões de brasileiros têm algum transtorno alimentar — ou seja, aproximadamente 1 em cada 20 pessoas no país.
A Associação Brasileira de Psiquiatria estima que mais de 70 milhões de pessoas no mundo são afetadas por essas condições. No Brasil, a anorexia nervosa chega a afetar até 2% das meninas adolescentes, segundo dados do Ministério da Saúde.
Uma pesquisa realizada em 16 países, debatida em audiência pública na Câmara dos Deputados em 2024, revelou que 1 em cada 5 jovens entre 6 e 18 anos apresenta algum transtorno alimentar. Entre as meninas, esse índice sobe para 1 em cada 3.
Em março de 2026, uma reportagem do G1 revelou que os transtornos alimentares estão sendo “vendidos” nas redes sociais como um estilo de vida — com perfis que ensinam a restringir calorias, prolongar jejuns e induzir vômitos, disfarçados de conteúdo de bem-estar e saúde. O psiquiatra Fábio Salzano, do Ambulim (USP), alertou: “Esse movimento é um risco à saúde. As pessoas estão naturalizando quadros de doença.”
Um estudo interno da Meta, revelado em outubro de 2025 pela Reuters, mostrou que o Instagram exibe até três vezes mais conteúdo relacionado a transtornos alimentares para jovens que já se sentem insatisfeitos com o próprio corpo — criando um ciclo que agrava a vulnerabilidade.
Quais são os tipos de transtornos alimentares?
É importante conhecer as diferentes formas desses transtornos para identificá-los precocemente. Cada um tem características próprias, mas todos compartilham uma relação não saudável com a comida, com o corpo e com a autoimagem.
Anorexia Nervosa
A anorexia nervosa é marcada pela restrição intensa da alimentação, impulsionada pelo medo excessivo de ganhar peso e por uma percepção distorcida do próprio corpo. A pessoa se vê “gorda” mesmo quando já está em estado de desnutrição grave.
Sinais de alerta:
- Perda de peso rápida e progressiva
- Contagem obsessiva de calorias
- Uso de roupas largas para esconder o corpo
- Prática compulsiva de exercícios físicos
- Afastamento de refeições em família ou em público
- Negação do problema (“estou bem, é só dieta”)
Complicações físicas: desnutrição, amenorreia (ausência de menstruação), arritmia cardíaca, osteoporose e, nos casos mais graves, risco de morte. A anorexia nervosa é o transtorno mental com maior taxa de mortalidade, segundo a psiquiatra Mara Maranhão (UNIFESP).
Bulimia Nervosa
Na bulimia, o padrão envolve episódios de compulsão alimentar — ingestão rápida de grandes quantidades de alimento — seguidos de comportamentos compensatórios como vômito induzido, uso de laxantes, jejum prolongado ou exercícios excessivos. A culpa e a vergonha são centrais nesse ciclo.
Diferença importante em relação à anorexia: Na bulimia, não existe necessariamente o desejo de emagrecer cada vez mais. Na maioria dos casos, a pessoa apresenta peso dentro da faixa normal para o IMC — o que torna o diagnóstico mais difícil para quem está de fora.
Sinais de alerta:
- Episódios frequentes de comer muito em pouco tempo
- Ida ao banheiro logo após as refeições
- Dentes com desgaste no esmalte (pela acidez do vômito)
- Calosidades no dorso da mão (sinal de Russell)
- Oscilações de humor e ansiedade intensa
Complicações físicas: irregularidade menstrual, gastrite, refluxo, desidratação, hipocalemia (queda de potássio, que afeta o coração) e problemas dentários severos.
Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP)
O TCAP é o transtorno alimentar mais comum no Brasil, segundo pesquisadores da USP. Caracteriza-se por episódios recorrentes de ingestão excessiva de alimentos em curto período, com sensação de perda de controle — mas sem os comportamentos compensatórios da bulimia. A pessoa come escondida, sente nojo e culpa de si mesma e frequentemente entra em ciclos de dieta radical seguidos de recaídas.
Complicações: obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, apneia do sono e depressão.
Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE/ARFID)
Diferente da anorexia, o ARFID não envolve preocupação com peso ou imagem corporal. A restrição alimentar se dá pela aversão sensorial a texturas, cheiros, cores ou sabores, ou pelo medo de engasgar ou vomitar após um episódio traumático. É mais comum em crianças, mas pode persistir na vida adulta.
Complicações: deficiências nutricionais graves, prejuízo no crescimento infantil e isolamento social em situações de alimentação coletiva.
Picacismo (Pica)
Caracterizado pela ingestão persistente de substâncias não nutritivas e não alimentares, como terra, areia, giz, papel ou plástico. Pode ocorrer em gestantes (especialmente quando há deficiência de ferro ou zinco), em pessoas com deficiência intelectual, autismo ou esquizofrenia.
Transtorno de Ruminação
Consiste na regurgitação repetida de alimentos já engolidos — que são mastigados novamente, engolidos de novo ou expelidos — sem náuseas nem mal-estar aparentes. Pode acontecer em bebês, crianças pequenas e adultos, frequentemente associado a episódios de estresse ou ansiedade.
Quais são as causas dos transtornos alimentares?
Não existe uma causa única. Os transtornos alimentares surgem da interação de múltiplos fatores:
- Biológicos e genéticos: histórico familiar de transtornos alimentares, alterações em neurotransmissores como serotonina e dopamina, e predisposições relacionadas ao controle do apetite e do humor.
- Psicológicos: baixa autoestima, perfeccionismo, impulsividade, histórico de trauma, abuso físico ou sexual, ansiedade e depressão.
- Socioculturais: pressão estética da mídia e das redes sociais, culto ao corpo magro, comparação social constante e ambientes que valorizam o controle alimentar como virtude.
- Familiares: dinâmicas familiares disfuncionais, comentários sobre peso e aparência, e ausência de suporte emocional na adolescência.
As redes sociais amplificaram dramaticamente esses fatores. Um estudo interno da Meta, divulgado em 2025, mostrou que adolescentes insatisfeitas com o próprio corpo recebiam até 10,5% de seus feeds com conteúdo ligado a transtornos alimentares — quase três vezes mais do que jovens sem insatisfação corporal.
Por que os adolescentes são mais vulneráveis?
A adolescência é um período de intensa transformação corporal, emocional e social. A busca por identidade, a necessidade de pertencimento e a suscetibilidade às pressões do grupo tornam os jovens particularmente vulneráveis à influência de padrões corporais irreais.
Segundo dados do Ministério da Saúde de 2025, a rede pública realizou 968 atendimentos a pessoas com transtorno alimentar no ano anterior, sendo que quase 300 precisaram de internação. O perfil predominante: mulheres jovens com anorexia — e com idades cada vez menores. Casos de crianças de 9 anos em tratamento já são relatados por especialistas do Ambulim (USP).
A Fiocruz alerta ainda que, entre 2006 e 2023, a prevalência de obesidade no Brasil mais que dobrou — passando de 12% para mais de 24% da população. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que o peso médio da população aumenta, os ideais de beleza se aproximam cada vez mais da inanição. Essa contradição alimenta o terreno perfeito para os transtornos alimentares.
Prevenção: o que famílias e educadores podem fazer
A prevenção começa pela conscientização. Pais, educadores e profissionais de saúde têm um papel fundamental na identificação precoce e na criação de ambientes que promovam uma relação saudável com a comida e com o corpo.
Atitudes preventivas no dia a dia:
- Evite comentários sobre o peso ou aparência de crianças e adolescentes — incluindo elogios do tipo “você emagreceu, ficou tão bem!”
- Incentive refeições em família, sem distrações de telas
- Promova uma relação neutra com os alimentos — sem “comida proibida” ou “comida de culpa”
- Converse sobre os padrões irreais de beleza nas redes sociais
- Esteja atento a mudanças bruscas no comportamento alimentar, no humor ou no uso do banheiro após refeições
- Não faça dieta restritiva como prática familiar rotineira
Tratamento: como funciona e quem pode ajudar
O tratamento dos transtornos alimentares deve ser conduzido por uma equipe multidisciplinar, que reúne psicólogo, psiquiatra e nutricionista — e, nos casos de adolescentes, também envolve os familiares ativamente no processo.
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é a abordagem com maior base de evidências para transtornos alimentares. Ela atua nas distorções cognitivas (“se comer esse pão, vou engordar tudo”), nos comportamentos compulsivos ou restritivos e na reconstrução da autoestima e da imagem corporal.
Para os casos de anorexia envolvendo adolescentes, a terapia familiar tem mostrado resultados especialmente eficazes — o envolvimento dos pais no tratamento aumenta significativamente as chances de recuperação, conforme estudos realizados na USP.
Em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico pode incluir medicação para tratar comorbidades como depressão e ansiedade, que frequentemente coexistem com os transtornos alimentares.
O tratamento é possível e a recuperação acontece. Quanto mais cedo for iniciado, maiores são as chances de uma recuperação completa e duradoura.
Quando procurar um psicólogo?
Muitas pessoas esperem o quadro se agravar antes de buscar ajuda — mas os melhores resultados acontecem com o diagnóstico e o tratamento precoces. Procure um psicólogo se você ou alguém próximo apresentar:
- Preocupação excessiva e constante com peso, calorias ou forma do corpo
- Restrição alimentar intensa ou episódios frequentes de comer muito em pouco tempo
- Uso de vômito, laxantes ou exercícios como “compensação” por ter comido
- Vergonha ou culpa intensa relacionada à alimentação
- Evitação de refeições sociais ou em família
- Oscilações bruscas de humor, especialmente relacionadas à comida ou ao peso
- Sinais físicos como queda de cabelo, tonturas frequentes, irregularidade menstrual ou cansaço extremo
- Sensação de falta de controle sobre o comportamento alimentar
Você não precisa estar no “fundo do poço” para merecer ajuda. O sofrimento — qualquer que seja a intensidade — é motivo suficiente para buscar suporte profissional.
Atendo presencialmente em Campo Grande (MS) e oferece também atendimento online, permitindo que pessoas de qualquer parte do Brasil acessem suporte psicológico especializado com comodidade e segurança.
Uma palavra de acolhimento
Se você está passando por isso, quero que saiba: não é falta de força de vontade. Não é frescura. Não é “coisa de cabeça” que se resolve sozinha. Os transtornos alimentares são condições médicas sérias, com bases neurológicas, psicológicas e sociais bem estabelecidas.
A recuperação é real. Muitas pessoas que hoje vivem uma relação saudável com a comida já estiveram no lugar em que você talvez esteja agora. O primeiro passo — pedir ajuda — é também o mais corajoso.
Marcelo Comparin é psicólogo clínico (CRP 14/03335-3), com mais de 20 anos de experiência no atendimento de adultos e adolescentes em Campo Grande (MS) e online. Saiba mais em marcelocomparin.com.
